Monday, February 12, 2007

Cibercultura e Aprendizagem


Cibercultura e Aprendizagem

Com a presente reflexão pretende-se perceber um pouco melhor a forma como a Internet se revela veículo de transmissão cultural e também se tentará definir, com base nas leituras efectuadas, o que se entende por cibercultura. Pretender-se-á ainda compreender de que forma a Internet (e tudo o que a envolve) tem vindo a condicionar/modificar o processo de ensino-aprendizagem.

Actualmente as sociedades, nos mais variados níveis, vivem em plena “era da informação”, cruzando a dita “auto-estrada da informação”, que as tem levado a conhecer novos horizontes (económicos, sociais, culturais…). Como o afirma Castells, o surgimento de um novo sistema electrónico de comunicação, caracterizado pelo seu alcance global, a integração de todos os meios de comunicação e interactividade potencial, está a mudar e mudará para sempre a nossa cultura (Castells, A sociedade em Rede, vol. I, pp. 423). A Internet veio possibilitar toda uma mutação das sociedades, em âmbitos e modos diferentes. Segundo nos diz Slevin, a Internet, como meio de transmissão cultural (Thompson), possibilita o acesso a um vastíssimo número de informações, que são produzidas, transmitidas e recebidas, através de componentes materiais. A partir do momento em que estamos ligados em rede, sofremos constantes transformações, pois coabitamos com um “imenso mundo novo”. Estaremos, pois, a reestruturar as nossas relações, aos mais variados níveis, e a perspectivar o mundo de forma completamente diferente. Pierre Lévy afirma mesmo que as relações interpessoais, laborais, a própria inteligência, dependerão da constante mutação de dispositivos informáticos, os quais têm vindo a globalizar, cada vez mais, todas as comunidades.

A Internet possibilita o contacto de um vastíssimo número de pessoas, localizadas em espaços e tempos diferentes, contacto esse que gera uma contínua permuta de saberes e experiências. Passámos a viver numa “aldeia global”. No entanto, há que ter em atenção que esta “aldeia” também é geradora de discriminação: origina os chamados info-excluídos, ou seja, todos aqueles que, por não partilharem da linguagem da “era digital” estarão, automaticamente, banidos. Apesar disso, a tecnologia está, cada vez mais, infiltrada nas diferentes vertentes da actividade humana, alterando mesmo a sua concepção de identidade e de cultura. É ela, tecnologia, que tem vindo a possibilitar, de forma extremamente sedutora, a interacção entre pessoas, muitas vezes completamente desconhecidas, separadas no espaço, sendo mesmo pertencentes a culturas distintas.

Cibercultura

O termo "cultura" é bastante amplo e de difícil definição. De facto esta palavra poderá ser analisada através de diferentes acepções e especificidades. A cibercultura foi originada por um novo ambiente comunicacional e cultural, mediado por computadores.
Segundo Castells, "as culturas são formadas por processos de comunicação" (Sociedade em Rede pp. 488) e, através dos meios técnicos de transmissão, o homem vai comunicando e tendo acesso a novas formas de ver e compreender a realidade, vai desvendando horizontes, que só se lhe tornaram acessíveis através da Internet. Como nos diz Lévy, a cultura e a vida social contemporâneas foram sendo transformadas com o surgimento de um ciberespaço. Este ciberespaço, gradualmente, tem vindo a moldar novas formas de concepção do saber, transformando o mundo. Nela há uma constante interacção, que torna o virtual em real. Gibson afirma que o ciberespaço é uma consensual hallucination experienced daily by billions of legitimate operators, in every nation, by children being taught mathematical concepts... A graphical representation of data abstratcted from the banks of every computer in the human system. Unthinkable complexity. Lines of light ranged in the nonspace of the mind, clusters and constellations of data. Like city lights, receding..." (Gibson, Neuromancer, pp.51).

Efectivamente, a chegada das TIC às escolas, e a sua integração crescente no processo educativo, tem modificado a forma como se aprende, o que se aprende e quando se aprende. A Internet, e tudo o que ela disponibiliza, está a mudar tanto a forma de aprender, como a de ensinar.

Se antes se pensava exclusivamente num ensino face-to-face, hoje vemos aberta a possibilidade de aprender em vários lugares, em tempos e modos diferentes. Cresce a importância da aprendizagem colaborativa, onde há a partilhas de saberes, experiências. A partilha de saberes, gerada pela actividade comunicativa, amplia a possibilidade da exploração de novas culturas, experiências e fomenta a criação de novas formas de socialização.

A cibercultura gera um novo comportamento e atitude, criados pelas vivências veiculadas e mediadas pela Internet. Foi esta cibercultura que criou a chamada net generation, cuja formação cultural é altamente mediada pela tecnologia, essencialmente digital. No processo de ensino-aprendizagem, quanto mais diferenciados forem os contextos educativos, maior será a probabilidade da consolidação de conhecimentos. A aprendizagem pretende-se o mais colaborativa possível, na medida em que o aluno, ao progredir, ajudará ou outro a desenvolver-se também. Só se aprende em colaboração, pois não aprendemos sozinhos, aprendemos com o mundo.

Como o afirma James Slevin, a Internet está a resultar num boom de informação à disposição dos indivíduos. Contudo, o desenvolvimento cognitivo do indivíduo só se fará se ele souber distinguir o essencial do acessório. De facto, a veracidade da informação disponibilizada na Internet nem sempre se verifica e, muitas vezes, só porque “está escrita na Internet”, essa informação torna-se, automaticamente legítima.

A Internet é, quanto a mim, um instrumento valioso para a educação, para a aprendizagem auto dirigida. No entanto, há que saber quando e como utilizá-la. Aprendizagens formais e não formais devem coexistir no processo educativo e o professor tem de compreender que, na actualidade, tem um novo papel – o de facilitador de aprendizagens – fornecendo ao aprendente meios/suportes que o ajudem a pesquisar, seleccionar a informação, incutindo-lhe sentido crítico que o torne capaz de saber orientar o seu trabalho, de forma consciente, organizada, crítica, em função da tarefa que lhe foi proposta. A Internet, e o seu pendor colaborativo, quando bem aplicado, pode ser um meio facilitador da função do professor, pois nela ele terá um recurso complementar à sua prática pedagógica. Poderá ser um valioso instrumento para o crescimento cognitivo do aluno, se este estiver munido de competências que lhe permitam compreender a validade, ou não, daquilo a que está a aceder no imenso mundo virtualmente…real.

Em suma, é fundamental que, enquanto “cidadãos do mundo” e também educadores, saibamos orientar-nos aquando da utilização da Internet, ou seja, orientar a nossa cultura não no sentido do «vale tudo», mas no sentido das tecnologias como a Internet serem usadas para reflectir o nosso mundo complexo, para conquistar um melhor entendimento nele, para intervir nele da melhor maneira que formos capazes. (Slevin, Internet e Sociedade, pp. 376)

Bibliografia consultada:

· Castells, Manuel, A Era da Informação: Economia Sociedade e Cultura, vol. I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005;

· Gibson, William, Neuromancer. New York, Ace Books, 1984.

· Lévy, Pierre, Tecnologias da Inteligência, Lisboa, Instituto Piaget, 1990;

· Slevin, James, Internet e Sociedade, Lisboa, 2002.

Patrícia Farias

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